Porque fazer poesia é vitral
Porque fazer poesia é vitral
Uma volta no relógio e foi-se a noite. Duas voltas no relógio e foi-se o dia. O escritor não vê o tempo passar. O tempo não tem olhos para o escritor impassível. Escrever é legar-se ao tempo, este inimigo mortal. O sonho de todo escritor é ser imortal. É escrever em conserva sobre o seu próprio tempo. É falar das horas que gastou escrevendo como se as tivesse gastado vivendo.
O relógio martela o seu marca-passo. Escrever é não ter tempo para escrever tudo o que se gostaria. É um constante não se satisfazer pelo que está feito. É dar satisfações a quem não o merece. E deixar no papel a imprecisão de quando foi escrito.
Escrever é tentar dizer alguma coisa em meia palavra. É sofrer a angústia do inteiramente diverso. A rima, e o escritor está no meio. Leio e releio minhas poesias na certeza de que não sou escritor. Se fosse, o tempo para mim passaria mais rápido. Mas é tudo tão burocraticamente certeiro, que tenho certeza. Não sou escritor que nada. Sou personagem de mim mesmo.
Uma volta no relógio e foi-se a noite
Duas voltas no relógio e foi-se o dia
Bem que o meu escritor podia
Ter-me escrito assim: sem métrica sem tempo sem guia
Sem sombra de dúvida.
Escrever é estar certo de que escrever não é um fardo. O bardo sabe que fazer poesia é passatempo.

duduoliva 1:12 em 29 29UTC dezembro 29UTC 2006 Permalink
Belo texto. E vida longa ao blog e ao site!!!
viktor 22:37 em 9 09UTC janeiro 09UTC 2007 Permalink
Oi, Eduardo. Muito obrigado. Estou acompanhando seu trabalho. Fique à vontade pra interagir também por aqui. E vamo que vamo. Grande abraço, V.
Shirley 17:16 em 8 08UTC fevereiro 08UTC 2007 Permalink
Ufa!
é pra respirar, prender a respiração, depois soltar devagarinho, pra dar tempo do coração acompanhar o texto?
Bonito demais!
Anônimo 15:37 em 24 24UTC maio 24UTC 2007 Permalink
Adoro os momentos em que ouço, faço ou digo poesia.
Por isso mesmo promovo em todas as 1ªSextas-feiras do mês ÀS 21,30
“NOITES DE POESIA”
JUNTA DE FREGUESIA DE S.NICOLAU – PORTO
R. Nova da Alfandega,25 Porto
Cá vos esperamos.
Até Breve
Carmen navarro
Cristiane 21:42 em 24 24UTC junho 24UTC 2007 Permalink
Oi! Achei esse texto seu através do google. Estava a procura de textos poéticos sobre o relógio. Gostei muito do seu!
Sou artista plástica e tenho um trabalho sobre relógio. Estou escrevendo um minicatálogo sobre esse trabalho e gostaria de saber se teria problema deu usar um trecho desse seu texto, claro com todos os créditos, aspas e afins. Por favor, se puder, responda ao meu emial: crisrvbiolchini@terra.com.br.
Atenciosamente
Cris Biolchini
viktor 9:21 em 25 25UTC junho 25UTC 2007 Permalink
Oi, Cristiane,
Te respondi por email. Obrigado pelo comentário.
Claudia Rangel 23:38 em 19 19UTC outubro 19UTC 2008 Permalink
Que bela surpresa!
abraço
viktor 10:30 em 20 20UTC outubro 20UTC 2008 Permalink
A vida é cheia de surpresas!