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  • viktor 05/12/2008 8:09 PM Permalink | Responder
    Tags: , , vitória de pirro   

    Pyrrhic Viktor

    A vida é repleta de vitórias de Pirro. Não se vem, vê e vence, sem que alguma coisa fique perdida pelo caminho. Alguma essência, algum milésimo de segundo que fizesse mais feliz. Há felicidade? Não consigo imaginar o que seja a felicidade. Não consigo me felicitar. Não consigo pensar que é possível alcançar a plenitude. Não é. A felicidade é ignorância. A felicidade é resignação. Sou infeliz porque sou utópico. Sou infeliz porque quero ser plenamente feliz. E, no entanto, há sempre um fio de Ariadne me puxando para baixo, para de volta ao labirinto. Há sempre um minotauro a ser enfrentado. E se não há minotauro, há o próprio labirinto.

    A vida é repleta de vitórias de Pirro. É preciso ser bom perdedor. Saber quando jogar a toalha e quando largar o osso (desde que com carinho na barriguinha). Só não é preciso abandonar o barco. “Mulheres e crianças primeiro!”

    A vida é repleta de vitórias de Pirro. Fiz tudo o que estava ao meu alcance, agora está em minhas mãos. La mano de Dios.

    A vida é repleta de vitórias de Pirro. É preciso suceder às batalhas de áscuas – pois não basta apenas ver, é preciso vencer. E não basta vencer, é preciso dar show. E o show, como se sabe bem, não pode parar.

     
  • viktor 18/11/2008 9:10 PM Permalink | Responder
    Tags: cidadania, , gratidão   

    O Paradoxo da Gratidão

    Parece mero papo de psicólogo ou de neobudista bestseller, mas é a pura verdade: ser feliz é agradecer. Ser feliz não é receber “obrigado”. Ser feliz é dizer. É agradecer. Marcel Mauss certamente achou esse caminho. Não sei se ele o praticava, mas que achou, achou. A dúvida é o que importa. E a dádiva é parenta próxima da gratidão. Você oferece, você dá. Você quase deve, em certo sentido. E, por isso, o “estar obrigado”.

    Nunca gostei das mães que ensinam aos filhos “as palavrinhas mágicas”. Gratidão não se cobra, gratidão se descobre. Só uma pessoa suficientemente madura pode agradecer, sem achar que não deve nada a ninguém. Só uma pessoa realmente feliz pode exercer a gratidão. E aí, caímos num paradoxo que eu estou meio farto de encontrar nos estudos sobre cidadania. Só o cidadão exerce a cidadania, mas buscar a cidadania é necessariamente exercê-la. E se a busco, não a tenho. O mesmo acontece com a felicidade exercida através da gratidão.

    Na proporção direta do que significa a gratidão para a felicidade, está o que significa retroceder para o amor. Retroceder, não no sentido de involuir, mas de voltar atrás. Quem ama é quem está sempre disposto a se despir do orgulho, para voltar atrás. Será isso? Ou é isso que a vida tem me ensinado?

    Mas estou realmente entristecido e sem saco de escrever mais por hoje. Talvez eu retome essa reflexão mais adiante. Grato aos que me lêem…

     
    • CASSIANE 17:13 em 20 20UTC março 20UTC 2009 Permalink

      Olá, adorei seu post! A gratidão é, sem dúvida alguma, o caminho para a felicidade.
      Quando agradecemos alguém ou alguma coisa, com a maturidade e descoberta, como você mencionou, ai então acordamos em nós a sabedoria interior, descobre-se a alegria que o sentimento de gratidão produz!

      Abraços

    • viktor 17:53 em 20 20UTC março 20UTC 2009 Permalink

      Olá, Cassiane,
      é isso aí. O curioso é que associei a gratidão à dádiva, mas a gratidão também pode ser vista como retribuição. Alguém dá, você agradece. :)
      Abraços.

    • jbconrado 20:46 em 12 12UTC janeiro 12UTC 2010 Permalink

      Aquele que não tem nada de bom, nada de virtuoso no coração, é incapaz de ensinar aos seus semelhantes a bondade e a virtude, porque é contrário à natureza das coisas… Condição básica para o educador nato. (Confúcio)*

      Luz e Paz… jbconrado

    • online 23:26 em 12 12UTC março 12UTC 2010 Permalink

      Sim, provavelmente por isso e

  • viktor 03/11/2008 11:35 AM Permalink | Responder
    Tags: , ,   

    Comentário pós-eleitoral

    O que há em comum nas derrotas de Massa e de Gabeira para seus respectivos Hamilton e Paes?

     
  • viktor 25/10/2008 7:43 AM Permalink | Responder
    Tags: , fudeu, gabeira, macaco tião, paes, , rio de gabeira, rio de paes, voto nulo   

    O Rio de Tião

    Motivações que resumem a disputa eleitoral no Rio de Janeiro, neste momento, e que por isso a tornam tããão interessante:

    * o importante é o projeto político mais amplo, por isso é preciso firmar parcerias em âmbito estadual e federal com o município
    * eu quero um jeito novo de fazer política, um jeito ético, com coerência, com responsabilidade e propostas de sustentabilidade

    Para bom entendendor, ouve-se assim:

    * eu voto até em um mamulengo, desde que ele tenha o apoio do PT e do PMDB
    * um governante governa para além de sua base aliada; pouco importa se PSDB e DEM ofereceram apoio; ofereça quem mais quiser

    A disputa entre Eduardo Paes (PMDB-PT, com apoio do PRB, PCdoB, e ex-PSDB, ex-DEM) e Fernando Gabeira (PV-PSDB-PPS, com apoio do DEM, e ex-PT) chama a atenção até dos paulistas que jamais gostaram da intricada política carioca. E chama a atenção por um confronto muito simples, mas que resume hoje o cenário político brasileiro. E não estou falando pura e simplesmente da maniqueísta disputa bipartidária PT vs PSDB. Quem vê que o Brasil hoje se resume a esses dois partidos é certamente um simpatizante enrustido do sistema político americano, que tantas vezes já se mostrou vencido. Não. A disputa no Rio é paradigmática porque aponta na direção do embate entre uma política partidária e uma política personalista. Nós, é claro, já passamos por isso uma pá de vezes, mas aqui a coisa toda ganha a proporção que ganha justamente pela inversão de tendências no cenário simplificador que antepõe esquerda e direita.

    É muito difícil, para uma população (em que me incluo) acostumada a se ladear entre direita e esquerda, entender que o que temos agora é a direita da esquerda e a esquerda da direita. Ou talvez, para os radicais comunistas (que sempre comem criancinhas): a direita da esquerda e a direita da direita. Para mim, o posicionamento, à direita ou à esquerda, da própria direita pouco me importa. O que estou querendo chamar atenção é, de modo bem pragmático, que hoje temos um candidato de direita apoiado pela esquerda e um candidato de esquerda apoiado pela direita. Isso é ou não é uma bagunça?

    Mas isso, claro, é só um reflexo da eleição de um líder de esquerda para a presidência. A pergunta que ficou na época foi: será que a esquerda foi feita para tomar o poder? O que temos à esquerda da esquerda? E essa pergunta, como se vá no Rio, ainda não calou.

    Mas a quase-porradaria apócrifa entre Gabeira e Paes só pega carona nessa dúvida existencial. O que está em jogo nesse segundo turno é uma guerra ainda maior. Uma guerra que opõe partidos e pessoas. Uma guerra que indica claramente que estamos diante de uma disputa entre um caudilho e uma máquina partidária. Mais uma disputa do gênero. Mas esse round é decisivo. Ao menos até os próximos dois anos.

    Quem vota em Paes não vota em Paes, vota em Cabral e em Lula. Vota no projeto político de esquerda que assumiu as rédeas do país nos últimos anos, e que está claramente ameaçado para as próximas eleições federais. Então é bom garantir, pelos menos na esfera local, essa realidade. Mas Paes sempre foi um homem de direita. Um calouro treinado para ser líder, mas só treinado. Ele é um resquício neocoronelista da política de base regional, com discurso imediatista e pragmático. Ele olha para a câmera, sabe o que é uma AP-3 e se refere a Barros Filho e Inhoaíba como se um prefeito realmente tivesse obrigação de deter todo o conhecimento sobre essas áreas da cidade. A tentativa é obviamente de polarizar com um político mais global, cujo discurso abstrato e liberalizante é reconhecido nacionalmente pelo combate aberto à ditadura militar e ao conservadorismo. Os eleitores de Gabeira, na teoria, dizem votar na coerência. Na prática, porém, eles votam na liderança. A coerência ficou para trás na reta final, quando ele recebeu de bom grado o apoio dos partidos de oposição ao Governo Lula e também do Clube Militar. Gabeira, que sempre foi pró-Lula, agora é anti-Lula e até estuda para responder sobre o ranqueamento do pólo de desenvolvimento de Inhoaíba no debate. Paes, que sempre foi anti-Lula (Não há nada que um bilhete de desculpas à Dona Marisa não resolva!), agora é pró-Cabral – e Cabral é pró-Lula, claro. Então, o que fica patente é que ou se vota no partido ou na liderança. Porque se você vota em Paes, poderia estar votando na Jandira, no Crivella, em qualquer um que recebesse o apoio do Lula. Quem está lá não é o Paes, mas o Lula, representado, de uma forma ou de outra, pela aliança entre PT e PMDB, mesmo que costurada entre Babus e Piccianis. Por outro lado, se você vota em Gabeira, está pressupondo que a política pode (ou ainda pode) ser feita por “caudilhos”, que o mais importante é a pessoa no comando, ainda que essa pessoa tenha o apoio do FHC, do Serra, do Alckmin, do Bornhausen, do César e do Rodrigo Maia, e do Caetano Veloso. Ah, e também da Frossard, e do Roberto Freire. E também do Leonardo Boff, do Niemeyer, do Jorge Roberto da Silveira, e por aí vai. É curioso e emblemático que o cara que representa a máquina partidária seja apoiado pelos partidos, e o cara que representa as lideranças isoladas seja apoiado por líderes isolados da sociedade civil. Curioso também que Gabeira, isolado no seu carisma personalista, se eleito, teria uma evidente base aliada mais forte que Paes, que, não fosse pelo crescimento do PMDB herdado por Cabral, seria, este sim, um governante isolado.

    No passado, o Rio sempre teve colada à sua disputa eleitoral nacionalizada a imagem de grandes líderes. Para o bem ou para o mal, houve Vargas, Lacerda, Chagas (que, por favor, não é meu parente!), Brizola, Garotinho, César e Garotinha. Agora, Cabral. Agora, Crivella. E agora, Gabeira. Daí o recrudescimento do voluntarismo na sua campanha – mas é claro que o jingle e o sufixo parelho com o nome da cidade ajudam: o Rio de Gabeira é uma ótima tirada!

    O empate técnico entre ambos os candidatos está na dificuldade de traçar a importância da máquina partidária no governo do próximo prefeito. E temos esta dificuldade somente porque estivemos por mais de década e meia alijados da máquina federal e estadual. E note que década e meia envolve muito mais que o Governo Lula. O empate técnico é também um empate “histórico”. Histórico não no sentido de que é memorável apenas, mas no sentido de que o embate entre Gabeira e Paes é também ele um embate entre trajetórias políticas e histórias de vida distintas. Há o confronto marcado entre o sujeito que foi guerrilheiro no passado e o rapaz que, segundo o próprio, se preparou a vida inteira para ser prefeito do Rio (muito embora na eleição passada tenha tentado de cara ser governador). É uma guerra particular entre local e global, partido e caudilho, juventude e experiência, experiência administrativa e combatividade. Mas é uma guerra implícita entre futuro e passado, um tentando sobrepujar o outro e mostrar que importa mais. Se é o passado de 1968 de Gabeira, ou o passado da enchente de Jacarepaguá de Paes. Se é o futuro da salvação e do “novo modo de fazer política” de Gabeira, ou se é o futuro do alinhamento político com a União de Paes. Nós estamos mergulhados na dúvida e nos culpando pela dívida histórica dos Maia (e não falo dos pobres conquistados pelos colonizadores espanhóis – por qué no te callas?). E agora? O que fazer? Votar num mamulengo ou num pretenso titeriteiro?

    E a pergunta que não quer calar (a última! juro!): por que o Macaco Tião não se candidata de novo?

     
    • Helena Aragão 11:47 em 25 25UTC outubro 25UTC 2008 Permalink

      Não sei o que me assusta mais, a vaguidão do discurso de um ou as promessas infinitas do outro… Nossa, minha memória problemática já tinha deletado a informação que o Paes tinha sido candidato a governador, é mesmo! E pensar que ele quase rodou quando o Cabral tinha desistido de apoiá-lo… A história teria sido bem diferente…

      Se eu pudesse, votava na Rosinha (não a Garotinha! Esta.

  • viktor 01/05/2008 6:11 PM Permalink | Responder
    Tags: atlas, crimes, mapas   

    Atlas de estereótipos criminais segundo a mídia

    xenofobia

    xenofobia

    narcotráfico

    narcotráfico

    crimes contra homossexuais

    crimes contra homossexuais

    crimes passionais

    crimes passionais

    crimes políticos

    crimes políticos

    prisão por crimes políticos

    prisão por crimes políticos

    crimes raciais e geocídios étnicos

    crimes raciais e geocídios étnicos

    incesto

    incesto

    pedofilia e prostituição infantil

    pedofilia e prostituição infantil

    prostituição e turismo sexual

    prostituição e turismo sexual

    pornografia na internet

    pornografia na internet

    poligamia

    poligamia

    sadomasoquismo e zoofilia

    sadomasoquismo e zoofilia

    sequestro e cárcere privado

    sequestro e cárcere privado

    suicídio

    suicídio

     
    • Flávia 16:11 em 14 14UTC maio 14UTC 2008 Permalink

      Nossa Viktor…
      muitissimo interessante!!!

      Bjão

    • Anônimo 11:44 em 16 16UTC maio 16UTC 2008 Permalink

      Viktor,

      Esqueci de dizer e como não sei onde poderia faze-lo, faço-o aqui.

      Parabens pelo Hermes cultural.

      Estamos a disposição para o que precisares. Se precisaes de alguma ajuda, mande !

      Com relação ao mapa, amigo, temos que fazer como nos foi dito, já que a idéia é presente e a maioria, para não dizer quase a totalidade, ficou cega, em função do modelo que a mídia usa. Voce concoradaria comigo de que precisamos ser mais claro e diretos para para tentar ao menos chacoalhar essa maia ? A visão critica desse mundão está pouca, voce não acha ?

      Abraços .:

    • Anônimo 13:27 em 16 16UTC maio 16UTC 2008 Permalink

      Prezado Viktor,

      Por umas e outras, temrinei por chegar aqui, o que na realidade é um começo.

      Agora, esse mapa americanóide dos males do mundo, está faltando um mapa que dá a origem de todos os problemas do mundo que são os EUA, e seu pretenso modelo economico-político-onipotente-ditatorial que eles pregam. Voce observou, que não existem males atribuídos ao EUA ? e na verdade eles tem tudo a ver ?

      Warpechowski
      missaocritica.blog.uol.com.br

    • viktor 13:34 em 16 16UTC maio 16UTC 2008 Permalink

      Olá, Warpechowski,

      O que você chama de um mapa americanóide é exatamente uma tentativa crítica de advertir para o contrário. Julguei não ser necessária uma legenda, mas a idéia é claramente apontar que o controle dos estereótipos midiáticos determina a visão de grande parte da população mundial. Se o mapa não aponta os EEUU como origem de todos os males e se, na sua visão ele é, isso só corrobora com a perspectiva de que a Grande Mídia trabalha aliada às grandes elites e que a formação de estereótipos ou “enquadramentos midiáticos” numa linguagem mais técnica é definitivamente um ponto a ser levado em consideração na análise sobre as mazelas do mundo.

      Obrigado pela oportunidade de explicar o que o Atlas significa.

      Abraços.

    • viktor 14:11 em 16 16UTC maio 16UTC 2008 Permalink

      Olá, Warpechowski,

      No fundo, no fundo, eu concordo com sua visão de que a maya abraça o mundo e enevoa o olhar da grande maioria, mas discordo no ponto fundamental de que deveríamos ser mais claros e diretos. Acho mesmo que qualquer tentativa de transmitir um conhecimento traduzido a nossos olhos, isto é, sem a apreensão do conteúdo pelo indivíduo por conta própria, incorre em deturpação do conhecimento.

      Assim como há os que passam e vêem o Atlas de Estereótipos que desenhei, sem identificar a mensagem que estou passando, há os como você que vêem o Atlas e param para pensar “Ei, isto não é bem assim.”

      Se eu houvesse escrito algo ali embaixo, toda a graça da autodescoberta se perderia num mar de explicações sem sal.

      Pode parecer ingenuidade… e talvez seja. ;)

      Perdão pela rispidez no comentário anterior. E fique à vontade para colaborar com o Hermés Cultural.

      Abraços.

  • viktor 30/11/2007 8:13 AM Permalink | Responder
    Tags: amor, paz   

    Juiz de Paz

    Casamento é um acordo de cavalheiros. Um contrato. Eu vendo, você compra. Mas não aceito crediário. Não venha me fazer planos para daqui quarenta dias, nem me dizer o dinheiro paga até felicidade. Felicidade é coisa de burguês. Casamento é contrato. E muito embora contrato também seja coisa de burguês, a instituição matrimonial nunca foi instância para se perseguir felicidade.

    Ser feliz no casamento é papo de feminista contra-cultural. E contra-cultura é fenômeno típico de vanguarda capitalista. Casamento é contrato e contrato, muito mais do que coisa de burguês, é resquício medieval. Eu caso para garantir terras aos meus herdeiros (naquela época não se falava com assiduidade em dinheiro, só em terras). É o típico golpe do baú. O casamento por natureza é um golpe do baú. Para se proteger do golpe, a burguesia intentou de inventar a separação de bens. E até mesmo naturalizar o divórcio, que foi cisma luterana. Desde então divorcia-se quem tem juízo, e o casamento passa a ser coisa de momento: eterno enquanto dure. Casamento é contrato. Divórcio é quebra de contrato.

    No mais das vezes quem quebra contrato é negociador antiético. Chances há de que o contrato seja quebrado porque antes não se soube negociar. A negociação se dá antes de se firmar o acordo. E casamento, eu já disse, é um acordo de cavalheiros. Um contrato.

    Há quem compre o produto pensando na felicidade de possuí-lo, mas a instituição matrimonial não é uma busca individual egotista, é um ideal de bem comum. As liberdades do indivíduo são restritas em favor da liberdade da coletividade. É o fim do estado de natureza, onde os indivíduos masturbavam-se, sodomizavam-se mutuamente e faziam ganguebangues sem camisinha. E eu não falo (falo?) de casamento monogâmico. De forma genérica, casamento não liberta, não expande, casamento contrai. Contrai núpcias. É um processo de interiorização. Um acabrunhamento sem fim. Definitivamente não é lugar de ser feliz. é lugar de ajuda e auxílio mútuo, é lugar de amizade, de mancebia, de amor talvez – amor acaba? – mas jamais de felicidade.

    Grande parte dos casamentos se inicia com paixão. Mas paixão, como o casamento burguês, é coisa de momento. Ela resfria e o que sobra é o contrato, a obrigação, o dever mútuo. As núpcias burguesas só têm lugar para direitos. E o lugar dos direitos irrestritos não é contratualista, é estado de natureza. Ao meu ver, quase estado de exceção. Quando um não quer, dois não brigam. E casamento, cavalheiros, é um acordo.

    ADENDO HERMENÊUTICO ENIGMÁTICO

    Uma árvore cai no meio da floresta e não há quem possa ouvi-la cair. Há som?

    Interpretação do físico quântico: o observador interfere ativamente com seu olhar no experimento observado.

    Interpretação do comunicador: não há mensagem sem recepção, a comunicação é uma via de mão dupla.

    Interpretação do historiador: o tempo deixa marcas, mas a memória é um processo constante de disputas e reinterpretações do passado.

    Interpretação do suicida: tire os sapatos primeiro.

     
  • viktor 19/11/2007 3:00 PM Permalink | Responder
    Tags: carro, metrô, ônibus, silêncio, trem, viagem   

    O silêncio da minha viagem

    A bala. O chicrete. O silêncio da minha viagem.
    Olha a bala. O chicrete. Barrinha de cereals. Duas é um reals. O silêncio da minha viagem.
    Por esses dias, andei de ônibus, de trem, de carro e de metrô. Experimentei as quatro patas de todos os gêneros e não cheguei a nenhuma conclusão. Só reparei curioso em cada diferença, em cada produto, em cada história que se tinha para contar.

    Eu podia estar roubando…

    O homem entra no coletivo e sai repassando bilhetinhos, sem falar palavra. Um velhinho retorce o bico e o ambulante mal-encarado encara com um “o senhor pega só por pegar, depois eu recolho”. Intimidador. Agora eu pergunto: que tipo de gente acha que um sujeito vai comprar o pacotinho só porque ficou segurando um tempo enquanto ele apresentava a sua promoção? Eu imagino que a idéia fosse apenas facilitar a sua vida na hora de contar quem pegou e quem não pegou pacotinho, mas mesmo assim não me entra muito na cabeça aquele mal-encaro “pega só por pegar”.
    Era um ex-viciado (existe?) que dizia ter sido salvo por Jesus (“só Jesus expulsa demônio das pessoas”).

    Barrinha de cereals.

    Não sei exatamente por que cargas d’água alguém instruiu os camelôs a fazer composto o substantivo barrinha-de-cereal e a adverbializar o barrinha, para que o plural fique sendo “de cereals”. Digo “alguém instruiu” porque nitidamente isso não pode advir de um inconsciente coletivo da humanidade-camelô (UPDATE: será isso a “sabedoria das massas” do Surowiecki?). No dialeto deles, parece óbvio que duas barrinhas de cereal ou duas barrinhas de cereais são opções ene-erre-á. Mas isso, na minha opinião, só prova que há uma mão invisível que os treina. Talvez uma multinacional como a Halls ou a Bauducco financiem cursos de capacitação. Isso ainda é um mistério. Mas a impressão que tenho quando vejo um vendedor de guarda-chuvas aparecer no meio do toró ou um vendedor de biscoitos Globo surgir no exato momento em que o trânsito engarrafa, eu tenho com o treinamento de camelôs para ônibus. Que outra hipótese justificaria os bilhetinhos padronizados que são grampeados nos saquinhos plásticos ou o inexplicável afã por aqueles ganchos de pendurar nas barras dos coletivos? Que força maior os teria feito decorar o bordão do “desculpe mais uma vez incomodar o silêncio da sua viagem”?
    Em todo caso, as barrinhas fazem sucesso. Quem não deu muito certo foi o torrone…

    “Essa é guerreira” e “O Baixinho tava tomando uma coça para sair desse ponto”

    É curioso como eles se cumprimentam, se conhecem e conhecem bem as rotas de ônibus da cidade. Mas há uma diferença sutil entre as solidariedades dos vendedores de ônibus e a dos vendedores de trem. Nos ônibus, eles precisam estar sós. Repare que um ambulante nunca entra no instante em que o outro está lá, ou se entra fica sentado lá no fundinho, aguardando o momento do estrelato. Nos trens, os vendedores andam em comboios. Eles precisam da ajuda de um e outro para abrir e fechar as portas internas das composições e têm espaço suficiente e recato de menos para andar pelo vagão esbravejando.
    Eles começam cedo e terminam tarde as rondas. Nos pontos de ônibus, quando há um ambulante recém-descido de um coletivo, ele aguarda até que os colegas que porventura estivessem no ponto tenham todos subido em outros respectivos ônibus. Ou seja, há uma fila. Há uma ordem. Não é a Casa da Mãe Joana.

    Senhores passageiros

    Quem anda de ônibus nos corredores da Zona Norte sabe que mais cedo ou mais tarde alguém irá entrar com um ganchinho de pendurar saquinhos de bala e se apresentar (é claro, pedindo desculpas por incomodar o silêncio da sua viagem). No trem esse pudor já não existe. É um tal de se circular para cima e para baixo objetivamente apresentando o produto: “Prestígio, Sulflair. Dois é um real” “Pele. O saquinho é cinquenta” “Tropa de Elite um, dois, três é dois!”
    Vendedores piratas são uma descoberta sensacional em trens. É curioso pensar por que a moda ainda não pegou nos ônibus. Mas o trem definitivamente é um ambiente à parte. É como se os vagões já fossem planejados para se deixar circular os vendedores ambulantes. No metrô, há barras verticais que impediriam o vaivém do trabalhador honesto. Além do mais, veja que o trem, diga-se lá pelo carteado, pelo marejar nauseante, pelo lixo e pelo “espaço entre o trem e a plataforma”, que é tão advertido nos alto-falantes do metrô, é cultura popular da grossa.

    Tropa da Elite

    O metrô não tem ambulantes. Mas o silêncio da minha viagem é incomodado pelos constantes avisos e anúncios no alto-falante. E a pipoca amanteigada da Estação Estácio me revira o estômago pelo avesso.

    E de carro…

    … a viagem é tão mais rápida que não dá tempo de ler. O melhor é botar uma música alta, para ao menos não ser aquele silêêêncio…

     
  • viktor 24/07/2007 10:08 AM Permalink | Responder
    Tags: em segunda pessoa   

    O trabalho aliena o homem

    Você chega em casa depois de quase hora e meia de trânsito e pensa por que diabos todos precisam sair do trabalho juntos. Proudhon. Aí, tua cabeça já não presta pra mais nada. Abre a geladeira, pega uma daquelas latinhas de cerveja que sobraram do fim de semana de farra, faz o estalinho do lacre de alumínio e entorna duas goladas de uma vez só. Você limpa o bigodinho, só agora olha para a marca da cerveja e pensa porra, por que eu não comprei aquela outra. Besteira já feita, você senta largado no sofá, ainda com a calça e prestes a tirar o sapato de couro preto, novinho mas já surrado, porque sapato de hoje em dia não resiste mais à levada do dia-a-dia. Bertrand Russel poderia ter mudado tua vida. Você liga a tevê e coloca na novela por ato falho, está mesmo esperando é o futebol de quarta. Adorno. Mas aí lembra que ainda não é quarta e pensa putaquepariu, por que que campeonato brasileiro não passa todo dia em horário nobre. Tá bom, não foi exatamente assim que você pensou, mas esse era o contexto. Então você segue estatelado no sofá com o olho vidrado na novela. Tua mulher abre a porta esbaforida do mercado, toda Karenina, pede pra você ajudar com as sacolas e vai ver a novela, razão pela qual ela estava esbaforida. Gandhi. Você levanta a muito custo e fala porra, preciso emagrecer. Aí você repara que as últimas quatro ou cinco coisas que você falou ou pensou tinham um palavrão no meio. Hm… Talvez você não tenha reparado isso. As sacolas do mercado estão cada vez mais vagabundas. Marx diria o mesmo. Você não quer nem saber de alça, puxa tudo pelo colarinho e arrasta as coisas pra dentro de casa, como se atravessar a fronteira da alfândega fosse questão de vida ou morte. Você toma o cuidado de não respingar cerveja, mais por não querer perder uma gota do que por não querer derramar no tapete da sala. Maldita idéia de colocar um tapete na sala, eu vivo escorregando, você se pega resmungando para si mesmo. Sua mulher está de pé com as mãos no quadril, vendo o galã beijar a gostosa da novela. Você tinha tudo para ser galã. Nietzsche. Se não fosse essa barriguinha de cerveja. Você entra de volta, tira a calça. A blusa, já tinha tirado em algum momento desses. Está só de cueca, aquele amarelado de mijo que não sai de jeito nenhum. Mas você não está nem Thoreau. Você entra no box e liga o chuveiro de porta aberta. Aí você lembra que sua filha pode acordar, melhor fechar a porta. A porra do gás não está mais aquecendo, você lembra. O banho gelado serve pra te acordar um pouquinho depois do sono do trânsito. E você pensa putaqueopariu, eu preciso largar esse emprego. Durkheim! E você pensa no filhadaputa do teu chefe. Filhadaputa, você diz baixinho entre dentes. Será pecado? Até Domenico de Masi. Tua mulher bate na porta do banheiro e diz quero entrar, anda logo aí. Você fica com vontade de xingar o mundo, mas desliga a porra do chuveiro. O gás dá um estalo. Merda de aquecedor. Preciso trocar essa bodega. Você abre a porta e tua mulher tá lá ainda vendo a novela. Você veste uma samba-canção e fica só com ela. Ela, a cueca, é claro. Tua mulher aproveita o intervalo e vai pro banho. Você muda de canal. Pega o pão de de manhã, bota um cadinho de manteiga e dá uma mastigada forte pra fingir que é pão quentinho. Chomsky, Chomsky. Faz uma força de Engels. não tem nada que preste na tevê e você chega a cogitar a hipótese de ler um livro. Bakunin? não tá com cabeça pra isso, você pensa. Melhor ficar vendo o programa da hebe. E você forra um pano de prato pra não cair migalha na mesa da sala. Acaba de comer o teu pão, bebe um copo de coca pra arrotar. Weber. O som que sai da sua boca é parecido com este. Você ouve tua mulher sair do banho. Ela vem pra mudar o canal. Você acaba sendo obrigado a ver a novela mesmo. Ler nem pensar. Ficam vocês dois estatelados no sofá, cada um pra um lado. Nos intervalos, vocês lembram de trocar uns beijinhos, mas nada muito barulhento que a menina pode acordar. Benjamin, ela parece dizer meio sem saco. Depois da novela, começa o humorístico. Depois o jornal da noite. Você vai dormir quando começa o jô. Sob os apelos de não vá pra cama sem ele. Foda-se o jô, amanhã tenho que acordar cedo, você pensa. Tua mulher ainda tá escovando os dentes e você tá dando uma golada direto do gargalo da garrafa dágua. Santo Agostinho, que horror! Vocês vão para o quarto e você lembra de tirar a toalha molhada de cima da cama forrada. Ela reclama um pouquinho, mas já está acostumada. Você já está acostumado a ouvir. Os dois deitam. Agora não é hora de fazer amor, cê tá cansado pra caralho, mas mesmo assim tenta. Na-na-ni-Marcuse. Ela recusa pelo bom senso. Os dois pegam no sono, ela demora um pouco mais e no dia seguinte dirá que não conseguiu dormir a noite inteira. O despertador toca e você tenta enforcá-lo. Maquiavel na veia. não consegue. A porra do despertador não pára. Melhor levantar. Tua mulher já tinha acordado e está no banheiro. Você desce de samba-canção pra pegar o jornal. Lá a primeira página, dá uma lavada no rosto, toma um banho tcheco e vai trabalhar. Unabomber. Pega um trânsito infernal. Você pensa putaqueopariu… Mas já falamos muito de você, que tal falar de um pouquinho de mim?

     
    • Bruno 1:14 em 25 25UTC julho 25UTC 2007 Permalink

      Muito bom o texto, parabéns.

    • viktor 10:20 em 25 25UTC julho 25UTC 2007 Permalink

      Valeu, Bruno. Te respondi lá no teu blog. Muito legal o texto dA dentista… :)

    • Bruno 16:53 em 25 25UTC julho 25UTC 2007 Permalink

      Grato pelo comentário! O sadismo, pra mim, é sempre uma fonte interessante de inspiração. Provavelmente por ser um tanto mal visto, assim como vários outros temas.

      Quando concluir tua série de contos, dê um toque ;)

      Abraço.

    • Fabiana 18:42 em 28 28UTC julho 28UTC 2007 Permalink

      Viktor, sigo seu conselho tomando doses moderadas de seus textos. Gosto deles.

    • viktor 21:56 em 28 28UTC julho 28UTC 2007 Permalink

      Valeu, Fabi! Que bom que me acompanha… :)
      Dei uma passada nos seus blogs tb. Tb gosto muito dos seus textos. O do fuso horário é um marco!!! :) )
      Beijo.

  • viktor 19/04/2007 11:05 AM Permalink | Responder
    Tags: , favela, museu   

    extrato de um diário de campo


    Estou acabando de fazer a segunda visita. Segunda visita, porque fiquei maravilhada com o que vi, aprendi e recordei. Meus parabéns, é o que mais do que nunca precisamos, cultura, cultura, cultura. As palavras ficaram ecoando ad eternum no vazio acústico da minha cabeça. Do lado de fora eu ouvia, Ele está lá dentro ainda? O que está fazendo? Ele está lá dentro? Eu saquei meu caderninho e comecei a anotar coisas para compor a estréia de meu diário de campo. Nunca tive a menor paciência para um diário de campo, por isso, acho que fiz bem em não ocupar meu moleskine com isso por enquanto. Só arranjei um espacinho na última folha de meu caderno de aula mesmo. Um Notebook modelo Pleno, de cada dura laranja, pautado, 96 folhas, 17,5cm x 24,5cm. Talvez eu ainda mude essas anotações para o meu moleskine, mas por enquanto, elas ocupam meia página da minha última página. E literalmente meia página, já que rasguei horizontalmente o restante para anotar um telefone que acabei perdendo. Cultura, cultura, cultura. Essas palavras eu plagiei de um livro-caixa, capa dura, revestida de papel preto, 100 folhas numeradas. Havia um outro parecido na entrada, onde eu pus apenas Viktor Chagas, meu nome, 25 anos, minha idade, Rio de Janeiro, procedência. Eu poderia fantasiar, é claro, dizer que eu venho do Recife, mas acho que o bom tom nessas ocasiões não é colocar a naturalidade, mas a praça de residência. Pois bem. Eu cheguei ainda a voltar ao livro-caixa da entrada, posto que o trajeto do museu era circular. Voltei lá também porque comprei o livro de contos e lendas da Maré. A menina simpática da portaria me disse que o livro era vendido e o cordel era de graça. Peguei um de cada e comecei pelo fim. A visita foi toda guiada. Antônio Carlos Vieira, o Carlinhos, falava e gesticulava com grande entusiasmo para a pequena comitiva que havíamos formado. Apenas eu e Rose (não confundir com a Cláudia Rose) não conhecíamos o museu, por isso, os comentários eram direcionados. Doze meses, doze horas, o museu é como um lápis mas também é como um relógio. É tempo de lembrar. E, como no princípio era o caos, na Maré, é o tempo da água. Fotos do acervo de Dona Orosina Vieira e uma panorâmica de Augusto Malta. A malta prossegue. No meio da sala, um barco ornamentado para a procissão. O mar vai virar sertão. Os textos são da Cláudia, ele avisa. São muito bonitos. Uma menininha pequeníssima chega e vai logo abraçando o Carlinhos. Ele sorri como se dissesse, Filhos… Mas o tempo do Futuro será imediatamente anterior ao corredor com o livro-caixa sobre o púlpito. E eu ainda não cheguei lá. Carlinhos explica como os aterros da Maré foram feitos pelos próprios moradores, com restos e sobras do cimento ora usado nas obras da Avenida Brasil, ora usado na construção da Linha Vermelha. O mar vai virar sertão. E é por isso que já não fazem mais sentido as palafitas que se sustentavam sobre quatro ou mais patas no alagadiço do que foi a Maré de Dona Orosina, a primeira moradora a chegar na região e montar sua casa com pedaços de madeira que vinham boiando nas marolas da baía. Vem gente de tudo quanto é estado. Vem principalmente gente que trabalhava mesmo na construção da Avenida Brasil e da Linha Vermelha, as principais linhas de acesso do centro ao subúrbio (jeito carioca de falar periferia). Lacerda viu os aterros e levou à Maré a Nova Holanda. Ou levou à Nova Holanda a Maré. E Carlinhos disse que no início havia alguma resistência a gente desta ou daquela comunidade, mas que hoje em dia, as coisas não são tanto assim. A Maré, para quem não sabe, não é exatamente UMA favela, são dezesseis. São dezesseis comunidades, que, unidas, formam o Complexo da Maré. Um bairro. Minha idéia é justamente estudar o que de cidadão teve o jornalismo e a mídia de maneira geral para aquelas comunidades. Há mais ou menos 30 anos foi o jornal comunitário União da Maré o que primeiro forjou a idéia de comunidades unidas. Comunidades que eram unidades de um todo, e a coisa, portanto, não era simples, era complexo. Agora, 30 anos depois, o jornal O Cidadão tenta construir uma identidade mareense, como ele próprio define. Experiências de comunicação comunitária fogem à lógica do jornalismo civil, que é como se costumava explorar uma espécie de jornalismo civilizador surgida no início do século XX, e aproximam-se à do jornalismo cidadão, como eu quero tratar disso, tanto enfocado nas temáticas de novas tecnologias. Eu sou um sujeito afeito às novas tecnologias, mas quis justamente me distanciar desse universo para ter contato com gente. Gente é fundamental, gente. Por isso, na palafita, achei engraçado quando Carlinhos disse que tem gente pegando panelas e utensílios de cozinha que ficam expostos na casa montada dentro do museu. Disse e pensei, é sinal de que ainda servem para alguma coisa. Se tivesse já lido o livro-caixa na hora em que ouvimos a história, certamente eu me lembraria da caligrafia de criança que dizia “Foi muito legal sabe porque porque eu quebrei tudo”, desse jeitinho mesmo, sem tirar nem por. Mas os tempos ainda não tinham passado. Ou nós ainda não tínhamos passado pelos tempos. Foi só depois de um (ou dois) tempo(s) é que vimos a escola de samba, o time de futebol, uma parede de tijolos e, no teto, um guindaste! Carlinhos advertiu, Esse guindaste era do tempo (o tempo, sempre ele) da fábrica do porto. Já estava aqui no galpão e nós achamos que podíamos deixá-lo aí em cima. Ainda funciona… e sorriu. A gente passou pelo União da Maré, pelas escrituras de quando os moradores finalmente conseguiram regulamentar sua situação, pelos brinquedos de criança. Chegamos no tempo do medo. O Luiz ou o Carlinhos, não sei bem ao certo, lembrou que, assim como as panelas, alguns meninos andaram levando as balas que faziam parte da exposição. Eram balas usadas. Balas de fuzil, de revólver, de metralhadora. Longes de serem balas de goma, de hortelã, de tutti-frutti. Quando falamos do caso das panelas, mais tarde, a Rose levantou uma hipótese de fetichização do objeto de museu, com a qual eu concordo inteiramente, mas eu contrapus a idéia dela dizendo que balas, por mais estranho que possa soar, são objeto de fetiche seja em que espaço for, no museu ou no meio da rua. Então foi que chegamos ao tempo do futuro. Aqui ainda está um pouco vazio, advertiu alguém. Tinha apenas uma maquete da Maré feita por crianças da Escola Bahia. Já levaram alguns carrinhos também. E foi aí que eu percebi que levar objetos num museu é importantíssimo. Os objetos são suvenires. Suvenires não apenas no sentido material da coisa, suvenires do ponto de vista conceitual mesmo, de lembrança, do primeiro passo para a constituição da memória social. O Carlinhos contou que a idéia do tempo do futuro é que o espaço seja um museu sobre o que já passou pelo museu, fotos das exposições, o passar do tempo. Uma espécie de metamuseu. A primeira vez que ouvi o termo metamuseu foi há bem pouco tempo. Ainda este ano, na verdade. Quando fui à Casa de Cultura de Ituiutaba, que não é exatamente um museu, mas um grande acervo de coisas sobre assuntos os mais diferentes. Tinha uma coleção de máquinas de escrever, uma coleção de bichos empalhados, uma coleção de uniformes escolares. Tudo num espaço que mal dava para se andar. Ouvi com atenção meu pai sugerir ao pessoal da Fundação Cultural de Ituiutaba que se focasse o museu em alguma realidade próxima à cidade, e que se reunisse o acervo numa reserva técnica, separando o que é útil e o que será descartado. Aí, ele disse, e meus olhos de metajornalista brilharam, que havia uma grande chance de se fazer ali num espacinho que fosse um metamuseu, contando a evolução da Casa de Cultura, o processo de constituição do museu, seu histórico e por aí vai. Na Maré, o metamuseu ainda não está pronto. Apenas um ano talvez seja cedo. Mas foi depois de sair do tempo do futuro que então me deparei com o livro-caixa, o bendito livro-caixa. Folheei, folheei e não conseguia parar de folhear. Achei curioso o livro-caixa ter depoimentos de gente tão íntima daquela memória toda, gente que via ali o que o Halbwachs diria que é a grande diferença entre o que é memória e o que é história. Memória é vida. Memória é vida, gente. Num outro breve texto que escrevi (esse com um arzinho mais acadêmico para diversificar), eu dizia que, para mim, não há metamuseu melhor que o livro-caixa no estreito corredor que encerra o Museu da Maré. Porque, no fundo, o livro-caixa que está ali aos nossos olhos e que, na maioria dos museus, costuma quase ser desprezado, é também ele um objeto de museu (um lugar de memória, diria Nora). É livro que não é para ser lido, mas para ser escrito, mas sobretudo um livro que, se lido, transporta no tempo o leitor. E o leitor, por mais óbvio que possa parecer, não é um leitor, é um releitor, posto que ele lê o que os que o antecederam leram. Para marcar minha humilde passagem, já com o projeto (ou a imaginação museal, diria meu pai) de constituir objeto de pesquisa para mim mesmo, pus no livro um modesto comentário. Uma frase curta e breve, que simbolizasse minha entrada naquele novo mundo. Pisei fora do museu ainda com aquelas palavras ecoando na minha cabeça, Cultura, cultura, cultura. Eu pensei cá comigo se realmente era essa a questão. Reli o comentário que anotei no meu caderno de aula: “é o que mais do que nunca precisamos”. Pensei no Chartier. Nunca nem vi uma foto do Chartier, de modo que para mim ele é um nome sem imagem. (UPDATE: Que é isso? Chartier agora é figurinha fácil em tudo que é colóquio.) Mas imagino o Chartier assim como quem imagina o Woody Allen, talvez com o aro dos óculos menos grosso. O que quero dizer é que se o que vi no museu não foi nada mais do que a memória viva da Maré, cultura não é exatamente o que falta. Há quem diga que favela não é lugar de museu e que favela não é lugar de cultura. E, aí posso ouvir o Chartier entrando e dizendo que cultura popular é uma categoria erudita. Criada, antes de mais nada, para ou ser uma categoria completamente autônoma, ampla e vaga (afinal, o que ou quem é o povo a que se refere o adjetivo popular?), ou ser uma categoria excludente: é cultura popular o que não é cultura erudita. Eu concordo com ele (quem ousaria dizer que não concorda?). Ou seja, não! Não se avexe, não, Salete Maria. Você sabe amarrar o cadarço do seu tênis porque tem memória ou porque tem cultura? E soube escrever o depoimento no livro-caixa do Museu da Maré por quê? Na minha humilíssima opinião, memória e cultura são duas cabeças do mesmo bicho-de-sete… Estou acabando de fazer a primeira visita. Primeira visita, porque fiquei maravilhado com o que vi, aprendi e recordei. Pretendo voltar…

    * publicado originalmente no overmundo

     
  • viktor 24/03/2007 1:19 AM Permalink | Responder
    Tags: knut, timothy treadwell, washoe   

    O que Knut e Treadwell têm em comum?

    Parei para pensar sobre isso não apenas porque quando tinha quinze anos vi, no zoológico, um urso sentar-se de pernas cruzadas e olhar no fundo dos meus olhos como se fosse um ser humano, mas também porque, desde o Hermeto Pascoal e de uma barata que avistei no banheiro da universidade, tenho um imenso respeito pelos albinos. Por isso, digo sem me contorcer, deixem o Knut trabalhar! Knut, para quem não lê jornal (por que diabos alguém não leria jornal e leria este blog?), é o mais novo xodó do sr. Frank Albrecht, uma espécie de Mario Moscatelli da Alemanha.

    Não sei e não tenho curiosidade de saber de onde vem Knut, esse nome. Se for por conta de Knut Hamsun, o prêmio Nobel, poderia comparar o urso a um escritor renomado. E fará algum sentido interromper minha série de devaneios literários para introduzir essa pensata. Sendo por causa de Knut Wicksell, o economista, direi que faz todo sentido a mãe rejeitar um neomalthusiano. A verdade é que Knut deve significar alguma coisa em alguma língua, mas eu desconheço e não sei bem o que é. Só sei que Knut tem nome de lanterna verde e isso não importa nem um pouco para o raciocínio que quero desenvolver, a não ser pelo fato de que verdes me lembram ecólogos, tanto quanto palmeirenses.

    Sobre os palmeirenses, pouco tenho a comentar, exceto que por uma noite os detestei. Precisamente no dia 20 de dezembro de 2000. Já sobre os ecólogos, minha grande inspiração seria Robert Park, um sujeito da cidade, como eu. Um sujeito da cidade, como o próprio nome já denuncia. Robert E. Park, portanto, está em oposição direta, apesar do excesso de erres, à Forrest Gump. E Knut? Onde está nesta história?

    Knut está bem no zoológico de Berlim. Bem é maneira de dizer. Não sei exatamente quantos anos ursídeos equivalem a um ano humano, como os anos dos cachorros, dizem, são quatro nossos, o fato é que Knut já passou, em seus alguns meses de vida, por poucas e boas. E, dependesse do adorável ecochato Albrecht, nenhuma semelhança com meu idolátrico ecólogo R. Park, Knut certamente teria abreviado seu sofrimento. O argumento de Albrecht é velho conhecido dos profissionais de mastectomia. “É melhor acabar logo com isso, porque você vai sofrer no futuro.” Nenhum pensamento positivo. Nenhuma poliana. Nenhum passarinho verde. Admiro os verdes alemães. Eles foram os únicos capazes de chegar ao poder num país ultra-desenvolvido. Mas os verdes alemães não estão isentos de albrechtes.

    Houve que, em depressão pós-parto, mamãe Knut rejeitou aquela bola branca de pêlos, um potencial acumulador de ácaros. Compadecido, o dissumulado Thomas Dörflein rapidamente apresentou-se como pãe do filhote, passando a responsabilizar-se pelo papá e pela hora de mimir. Knut não se fez de rogado, e sobreviveu. Acontece que, como toda história com um espelho mágico, Albrecht resolveu por conta própria que domesticar animais silvestres pode afetar o comportamento dos bichos e causar-lhes problemas psicológicos, o que eu concordo inteiramente. O próprio Albrecht, abandonado por seus pais quando miúdo (seu nome de batismo era Greystoke), convive desde pequeno com um punhado de seres humanos.

    Domesticar animais silvestres chega a ser crime em um ou outro lugar do globo, mas raciocine comigo: por que matar Knut e não matar Dörflein? Quero dizer, se o urso terá problemas mentais (ou “comportamentais”, na versão de Albrecht) para o resto da vida, por que diabos a recíproca não é verdadeira? E quem garante que não foi isso o que pensou o urso pardo de Treadwell?

    Outro argumento que vi muito pouco debatido nos papelotes de embrulhar peixe foi o de que somos todos filhos da Mãe-Natureza. Daí, eu desdobro duas boas possibilidades: ou Knut, sendo ele também filho da Mãe-Natureza, não foi verdadeiramente abandonado pela sua genitora e portanto não está, como pensamos todos, entregue à sua própria sorte; ou Dörflein, sendo ele também filho da Mãe-Natureza é, de certa forma, irmão de Knut e portanto não representa ameaça ao ecossistema do pequenino.

    Fico pensando se os animais tivessem a mesma consideração que o afável Albrecht, no episódio de Mogli, o menino lobo. No mínimo, o direito de pensar “Não, esse pequeno pobre humano poderia apresentar problemas comportamentais graves se nós, lobos, lhe déssemos de mamar. É melhor larga-lo no mundo e deixar que a natureza (a bendita Mãe-Natureza) cuide dele.” Mas, não. Mogli, como Knut, foi cuidado por uma alma má como a de Dörflein e por isso cresceu e se tornou… … … Albrecht.

    Eu particularmente acho que a solução para o impasse de Knut, essa escolha de Sofia às avessas, seria mais eficiente se, como a vara familiar, esperássemos o rebento completar doze anos para que ele próprio pudesse decidir com quem deseja morar, se com Dörflein, a mãe, ou se com Albrecht, o pai, ou vice-versa. De um modo ou de outro, o que não detiver a guarda, pagará pensão alimentícia. E, enquanto esperamos que Knut cresça para ser consultado pelo juiz da infância e da adolescência (não é à toa que o nome é Eca!), podemos ir-lhe ensinando modos civilizados, talvez uma língua com que possa se comunicar no tribunal, e quem sabe o alfabeto libras como a chimpanzé Washoe?

    Um dia, no dia em que Knut celebrar seus dezoito anos (quantos anos serão dezoito anos ursídeos?), veremos o animal se reintegrar por um instante à matilha, conquanto para ele, Knut, não seja exatamente uma reintegração. Então, em linguagem de surdos-mudos, ouviremos o pobre urso voltar a nós e exclamar “Quem são esses bichos brancos?”

     
    • Fabiana 18:53 em 24 24UTC março 24UTC 2007 Permalink

      Pronto, agora viciei nesse blog…

    • viktor 18:54 em 24 24UTC março 24UTC 2007 Permalink

      Obrigado, Fabiana. Volte sempre. Mas beba esse blog com moderação… :)

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